O discreto charme da fantasmagoria
Enquanto lia na sala de espera, ouvi sem querer o que uma mulher conversava atrás de mim. Falava de um pai que saiu de moto às pressas carregando sua filha, uma criança de colo com uma febre que lhe queimava o corpo. A mãe ficou em casa, estava doente também. Era por volta da hora do almoço, fazia um calor desgraçado. Numa esquina, um carro lançou os dois no asfalto em ebulição. Estava tão quente que nenhum curioso ousou encarar o sol, além de que seria tolo se perguntar por algum resquício de vida, dada a gravidade da batida. Hoje dizem que o pai costuma aparecer no posto de saúde, mas sem dar pinta de assombração. Aparece sempre durante o dia, como um paciente comum, entediado, lendo alguma coisa na sala de espera.