Pra quê?

cena do filme baia dos anjos

— Uma amiga minha que mora fora tem um monte de plantas na sacada. Até que dá um espaço interessante, principalmente quando estão grandes e florindo. Alivia um pouco a sensação de confinamento do apartamento, sabe? Mas eu não teria paciência. Imagina ter que ficar aguando aquilo, e podando e não sei o que mais. No inverno, ela apenas deixa pra lá. Na verdade, ela diz que as plantas que tem são as que conseguem sobreviver ao clima frio. Uma espécie de seleção natural, ela costuma brincar.

— Como a natureza é perfeita. Essa capacidade de resistir, de se renovar… — disse ajeitando o plástico do buquê de flores sobre o tampo frio da mesinha ao lado da minha cama, disputado entre restos de ataduras e comprimidos.

É… essa capacidade de resistir — pensei. Essas bactérias, esses vermes, esse amontoado podre de coisa orgânica… Toda essa merda resistindo ao longo de bilhões e bilhões de anos. Resistindo e se transformando, pra no fim culminar na maior de todas as desgraças. Pra que, Deus? Pra que Deus? Pra quê? — pensei, mas não disse.